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Viver com dor por anos também pode afetar a saúde mental

há 4 horas
5 min de leitura


A dor que aparece todos os meses pode parecer suportável no começo.

A mulher aprende a organizar a rotina em torno dela. Cancela um compromisso quando está pior, evita uma relação sexual porque sabe que pode doer, falta ao trabalho em alguns dias, tenta mais um tratamento e espera que o próximo funcione.

Quando isso se repete durante anos, porém, o impacto deixa de estar apenas no corpo.

A endometriose é uma doença crônica e, para muitas mulheres, envolve uma combinação de dor, fadiga, alterações na vida sexual, dificuldades relacionadas à fertilidade e redução da qualidade de vida. Estudos recentes mostram uma associação consistente entre endometriose e maior ocorrência de sintomas de ansiedade e depressão.

Isso não significa que toda mulher com endometriose desenvolverá um transtorno psicológico. E também não significa que a doença seja “emocional”.

Significa que viver com uma condição dolorosa e imprevisível por muito tempo pode ter consequências emocionais que não deveriam ser ignoradas.



Quando a dor começa a ocupar espaço demais na vida


A dor crônica não acontece apenas no momento em que dói.

Ela pode começar a interferir na maneira como a mulher organiza os seus dias.

Existe a preocupação de saber quando a próxima crise vai acontecer. O receio de marcar uma viagem ou um compromisso. A necessidade de planejar atividades de acordo com o ciclo. A frustração de precisar cancelar algo por causa da dor.

Com o tempo, essa imprevisibilidade pode gerar ansiedade e sensação de perda de controle.

E existe ainda um efeito importante: a mulher pode começar a antecipar a própria dor.

Se determinadas situações já foram associadas a experiências dolorosas, o medo de sentir novamente pode fazer parte da experiência antes mesmo de a dor aparecer.

Pesquisas sobre endometriose apontam que ansiedade, estresse, pensamentos relacionados à dor e outras questões psicossociais estão associados a maior impacto da dor e pior qualidade de vida.


A saúde mental também pode ser afetada por aquilo que vem junto com a doença


Nem sempre é a dor isoladamente que pesa.

A endometriose pode interferir na sexualidade, nos relacionamentos, no sono, na disposição e nos planos de maternidade.

Uma mulher que sente dor durante a relação pode começar a evitar a intimidade. Outra pode passar anos tentando engravidar sem saber exatamente qual será o próximo passo.

Quando diferentes dificuldades se acumulam, o impacto emocional pode ser muito maior do que aquele causado por um único sintoma.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo 93 estudos, identificou justamente essa relação entre endometriose, sofrimento psicológico e redução da qualidade de vida, destacando dor pélvica, alterações do sono, fadiga, função sexual e dificuldades nos relacionamentos entre os fatores envolvidos.


Isso não significa que a dor esteja “na cabeça”


Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes.

Quando falamos sobre saúde mental em mulheres com endometriose, não estamos diminuindo a dor física ou dizendo que ela é causada pela ansiedade.

A dor é real.

Ao mesmo tempo, corpo e cérebro não funcionam de maneira separada. A experiência de uma dor persistente pode modificar a forma como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos e pode se relacionar com alterações emocionais.

Por isso, dizer que a saúde mental também precisa ser cuidada não é questionar a existência da doença.

É reconhecer que uma condição crônica pode afetar diferentes dimensões da vida ao mesmo tempo.


E o contrário também pode acontecer


Existe uma relação de mão dupla.

A dor persistente pode aumentar o sofrimento emocional. E ansiedade, estresse, alterações do sono e outros fatores psicossociais podem contribuir para uma experiência de dor mais intensa e para uma pior percepção da qualidade de vida.

Isso não significa que a mulher consiga simplesmente “controlar a dor” mudando a maneira de pensar.

Significa que existem diferentes fatores participando da experiência da dor, e alguns deles também podem ser tratados.

É por isso que estudos que avaliam intervenções psicológicas em mulheres com endometriose vêm encontrando benefícios em aspectos como ansiedade, depressão, qualidade de vida e, em alguns casos, na própria percepção da dor — embora a qualidade das evidências ainda varie entre os estudos.


Cuidar da mente não substitui tratar a endometriose


Esse ponto precisa estar muito claro.

Psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico ou outras estratégias de saúde mental não substituem a investigação e o tratamento ginecológico da endometriose.

Da mesma forma, tratar a doença ginecológica não significa que todas as consequências emocionais desaparecerão automaticamente.

Em algumas pacientes, será necessário atuar nos dois lados.

O ginecologista pode investigar a doença, controlar seus sintomas e definir a estratégia de tratamento. Outros profissionais podem contribuir quando existem questões específicas relacionadas à saúde mental, dor crônica, sexualidade, sono ou outros aspectos da vida da paciente.

Não é escolher entre cuidar do corpo ou da mente. É entender que os dois fazem parte da mesma pessoa.


Quando procurar ajuda?


Não é preciso esperar chegar ao limite.

Mudanças persistentes de humor, ansiedade intensa, isolamento, perda de interesse pelas atividades que antes faziam sentido, alterações importantes no sono ou sensação de que a doença está tomando conta da vida são sinais de que vale buscar ajuda profissional.

E existe uma diferença importante entre estar emocionalmente afetada por uma situação difícil e ter um transtorno de saúde mental.

Por isso, não cabe à própria paciente fazer esse diagnóstico sozinha.

O importante é reconhecer que o sofrimento merece atenção.


A endometriose precisa ser tratada para além da lesão


Durante muito tempo, a conversa sobre endometriose ficou concentrada em diagnóstico, medicamentos e cirurgia.

Tudo isso continua sendo fundamental.

Mas hoje sabemos que o impacto da doença é mais amplo.

A mulher não vive apenas a lesão que aparece no exame. Ela vive a dor, as limitações, as dúvidas, os tratamentos, os relacionamentos e os planos que podem ser afetados por ela.

Por isso, cuidar da endometriose também significa perguntar:

Como essa doença está afetando a vida dessa mulher?

E, quando a resposta envolve sofrimento emocional, isso também precisa entrar na conversa.

Porque cuidar da saúde mental não significa dizer que a dor está na cabeça.

Significa reconhecer que uma doença que afeta o corpo por tanto tempo também pode deixar marcas na forma como essa mulher vive, pensa e se relaciona com o próprio corpo.


Referências


  • Selected Parameters of the Mental State of Women with Endometriosis: A Systematic Review. Journal of Clinical Medicine, 2026.

  • Relationship between endometriosis and mental health: A systematic review and meta-analysis. Annals of Medicine and Surgery, 2025.

  • Depression, Anxiety, and Correlating Factors in Endometriosis: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Women's Health, 2021.

  • A systematic review and meta-analysis of the relationship between emotion regulation, pain, depressive symptoms and quality of life in women with endometriosis. Journal of Psychosomatic Research, 2025.

  • Effectiveness of psychological interventions in endometriosis: a systematic review with meta-analysis. 2024.

  • Psychosocial factors associated with pain and health-related quality of life in Endometriosis: A systematic review.

 
 
 

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