Por que algumas mulheres continuam sentindo dor mesmo depois de tratar a lesão?

Uma das situações que mais confundem quem tem endometriose é continuar sentindo dor mesmo depois de tratar a doença.
A primeira reação costuma ser pensar: “Então a cirurgia não resolveu?”
Nem sempre.
A relação entre endometriose e dor é mais complexa do que simplesmente encontrar uma lesão, retirá-la e esperar que toda a dor desapareça.
A lesão é apenas uma parte da história
A endometriose provoca um processo inflamatório que pode estimular continuamente os nervos e os tecidos próximos às áreas afetadas.
Quando esse estímulo acontece durante muito tempo, o sistema responsável por perceber e processar a dor também pode sofrer mudanças. Em algumas mulheres, ele passa a responder de maneira mais sensível aos estímulos.
É o que chamamos de sensibilização.
Na prática, isso significa que a dor pode continuar mesmo quando a lesão que iniciou aquele processo já foi tratada.
Por isso, a intensidade da dor não conta toda a história
Esse é outro ponto importante.
A quantidade de dor não indica necessariamente a extensão da endometriose.
Uma mulher pode ter lesões extensas e sentir pouca dor, enquanto outra pode apresentar uma doença aparentemente menos extensa e conviver com sintomas muito intensos.
Isso acontece porque a experiência da dor envolve diferentes fatores, incluindo inflamação, nervos e a maneira como o sistema nervoso processa esses estímulos.
Por isso, olhar apenas para o tamanho ou para a quantidade de lesões não é suficiente para entender o que aquela paciente está sentindo.
E o que isso significa depois de uma cirurgia?
Significa que tratar a lesão e tratar a dor não são necessariamente a mesma coisa.
A cirurgia pode ser uma importante ferramenta para controlar a endometriose e reduzir a dor em pacientes selecionadas. Mas, principalmente quando existe uma história longa de dor, é preciso avaliar também se existem outros mecanismos mantendo esse sintoma.
Isso não significa que a cirurgia “não funcionou”.
E também não significa que a dor seja imaginária ou “psicológica”.
A dor é real. O que pode acontecer é que, depois de tanto tempo recebendo estímulos dolorosos, o sistema nervoso continue respondendo mesmo após a causa inicial ter sido tratada.
Por isso, o tratamento precisa acompanhar a paciente
Quando a dor permanece, o caminho não deve ser simplesmente repetir o mesmo tratamento ou concluir que “não tem mais o que fazer”.
É preciso voltar a avaliar:
como é essa dor;
quando ela aparece;
quais fatores pioram ou melhoram;
se existem outras causas associadas;
e quais mecanismos podem estar contribuindo para a sua manutenção.
A partir daí, o tratamento pode precisar combinar diferentes estratégias, de acordo com a necessidade de cada mulher.
Essa visão é especialmente importante porque a endometriose é uma doença que pode acompanhar a paciente por muitos anos. As recomendações atuais reforçam a importância de pensar no cuidado de forma individualizada e de longo prazo, e não apenas em uma intervenção isolada.
A cirurgia pode tratar a doença. A dor também precisa ser compreendida.
Essa talvez seja a principal diferença.
Não basta perguntar onde está a endometriose. É preciso entender por que aquela mulher está sentindo dor e o que está mantendo esse sintoma.
Quando fazemos essa distinção, conseguimos evitar dois extremos: acreditar que toda dor será resolvida apenas com cirurgia ou, no outro lado, fazer a paciente acreditar que precisa simplesmente aprender a conviver com ela.
A dor persistente merece ser investigada.
E quanto melhor entendemos os diferentes mecanismos envolvidos, mais conseguimos construir um tratamento realmente individualizado.
Referências
European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis.
ESHRE. Guideline Endometriosis – Surgical Treatment.
Peripheral, Central, and Cross Sensitization in Endometriosis-Associated Pain and Comorbid Pain Syndromes.
Nociplastic Pain in Endometriosis: A Scoping Review.
Diagnosis and Therapy of Endometriosis. Guideline of the DGGG, OEGGG and SGGG, 2025/2026.




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