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Por que o acompanhamento continua mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida?

há 8 minutos
4 min de leitura


Quando uma mulher passa por uma cirurgia para tratar a endometriose, é natural imaginar que, depois da recuperação, aquela história chegou ao fim.

Mas a cirurgia pode ser um marco importante no tratamento, sem necessariamente ser o ponto final do cuidado.

A endometriose é uma doença crônica e pode apresentar diferentes comportamentos ao longo do tempo. Por isso, mesmo quando a cirurgia foi bem indicada, bem planejada e trouxe uma excelente resposta, o acompanhamento continua fazendo parte da estratégia.


Cirurgia bem-sucedida não significa que a paciente não precise mais de acompanhamento


O objetivo da cirurgia é tratar as lesões que foram identificadas e que justificavam o procedimento, buscando melhorar sintomas, qualidade de vida e, em situações específicas, aspectos relacionados à fertilidade.

Mas a evolução depois da cirurgia não é igual para todas as mulheres.

Algumas permanecem sem sintomas por muitos anos. Outras podem voltar a apresentar sintomas ou alterações que precisam ser investigadas. E existe ainda a possibilidade de a dor persistir por mecanismos que não dependem exclusivamente da presença de uma nova lesão.

Por isso, sentir-se bem depois da cirurgia é uma excelente notícia, mas não significa que o acompanhamento perdeu a importância.


O que estamos acompanhando depois da cirurgia?


Não se trata simplesmente de procurar uma nova lesão a cada consulta.

O acompanhamento deve considerar principalmente como a mulher está evoluindo.

É importante observar:

  • se os sintomas realmente melhoraram;

  • se alguma dor voltou ou mudou de característica;

  • como está o ciclo menstrual;

  • se surgiram novos sintomas;

  • como está a função intestinal ou urinária, quando essas estruturas estavam envolvidas;

  • e, principalmente, como está a qualidade de vida.

Dependendo do tipo e da localização da endometriose, dos sintomas e do tratamento realizado, exames de imagem também podem fazer parte desse acompanhamento.

A ESHRE destaca justamente que o seguimento não deve ser baseado exclusivamente em exames de imagem ou exames de sangue. A avaliação clínica e o impacto da doença na vida da paciente também precisam ser considerados.


E a endometriose pode voltar?


Pode.

Mas é importante ter cuidado com a palavra “voltar”, porque ela pode significar coisas diferentes: o reaparecimento de sintomas, a identificação de novas lesões ou a necessidade de uma nova cirurgia.

As taxas de recorrência variam bastante entre os estudos justamente porque dependem do tipo de doença, da cirurgia realizada, do tempo de acompanhamento e da forma como a recorrência foi definida.

Em um estudo recente de 2026 que reuniu 57 estudos e mais de 22 mil pacientes, a taxa agrupada de reoperação após cirurgia minimamente invasiva foi de aproximadamente 10,8%. Os autores ressaltam, porém, que os resultados variam conforme o tipo de endometriose, a estratégia cirúrgica, o tratamento após a cirurgia e o tempo de acompanhamento.

Isso é importante porque recorrência não significa necessariamente que a cirurgia anterior foi mal realizada.

A endometriose tem comportamento crônico, e diferentes fatores podem influenciar sua evolução.


O tratamento depois da cirurgia também pode ser diferente para cada mulher


Em algumas pacientes, principalmente naquelas que não desejam engravidar imediatamente, pode ser indicado tratamento hormonal após a cirurgia para reduzir a recorrência de sintomas e de determinadas formas da doença.

Mas isso não significa que toda mulher operada precise usar medicação.

A escolha depende de vários fatores: tipo de endometriose, sintomas, idade, desejo de engravidar, tratamentos anteriores, riscos e benefícios de cada estratégia.

É justamente por isso que não existe um “protocolo pós-cirurgia” único para todas as pacientes.


E quando os sintomas reaparecem?


Esse é um dos motivos mais importantes para manter o acompanhamento.

Uma nova dor não significa automaticamente que a endometriose voltou.

Pode existir uma nova lesão, mas também podem existir outras causas para aquele sintoma. Em algumas mulheres, por exemplo, a dor pode permanecer ou reaparecer por alterações relacionadas ao próprio processamento da dor pelo sistema nervoso.

Por isso, o caminho não deve ser simplesmente repetir uma cirurgia.

Primeiro é preciso entender o que mudou, por que mudou e qual é a causa daquele sintoma.

Essa avaliação é ainda mais importante porque novas intervenções cirúrgicas podem trazer riscos cumulativos. Uma revisão publicada em 2026 destaca que cirurgias repetidas podem ter benefício sintomático progressivamente menor e aumentar riscos relacionados a aderências, função dos órgãos e reserva ovariana.


O objetivo não é procurar doença para sempre


A ideia do acompanhamento não é transformar a paciente em alguém que precisa fazer exames constantemente por medo de a endometriose voltar.

É justamente o contrário.

É acompanhar com critério para saber quando é necessário investigar e quando é possível simplesmente seguir a vida.

Se a paciente está bem, sem sintomas relevantes e sem indicação específica para novos exames, isso também faz parte de um bom acompanhamento.

O importante é que exista um plano individualizado, levando em consideração o tipo de doença que ela apresentou, o tratamento realizado e os objetivos daquela fase da vida.


A cirurgia pode ser um recomeço. O acompanhamento ajuda a preservar esse resultado.


Uma cirurgia bem-sucedida pode representar uma mudança muito importante na vida de uma mulher com endometriose.

Mas o cuidado não termina quando termina o pós-operatório.

Ele continua na observação dos sintomas, na prevenção quando indicada, na avaliação de novas queixas e na adaptação da estratégia conforme a vida da paciente também muda.

Porque tratar endometriose não é apenas resolver o problema de hoje. É construir um cuidado que continue fazendo sentido nos próximos anos.



Referências


  • European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis. 2022.

  • ESHRE. Endometriosis Guideline — Long-term monitoring.

  • ESHRE. Endometriosis Guideline — Recurrence and prevention of recurrence.

  • Reoperation After Minimally Invasive Endometriosis Surgery: A Phenotype-Specific Meta-analysis of 22,644 Patients. 2026.

  • Surgical management of endometriosis: surgical techniques, adjuvant therapy, and long-term management. 2026.

  • Long-Term Follow-Up Regarding Pain Relief, Fertility, and Re-Operation after Surgery for Deep Endometriosis. 2024.

  • Recurrence after surgery for endometrioma: a systematic review and meta-analyses. 2024.

 
 
 

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