Quando a dor durante o sexo vira parte da rotina, o casal também sente

Falar sobre dor durante a relação ainda é difícil para muitas mulheres.
Algumas passam meses ou até anos tentando encontrar uma posição que doa menos. Outras aprendem a antecipar a dor antes mesmo de começar. E há quem simplesmente evite falar sobre isso, inclusive com o próprio parceiro.
Quando existe endometriose, essa situação pode ser ainda mais complexa.
A dor durante ou depois da relação sexual, chamada de dispareunia, é um dos sintomas que podem estar associados à doença, especialmente quando existe comprometimento profundo da pelve. Mas o impacto não fica restrito ao momento da relação. Ele pode alcançar a sexualidade, a autoestima e a própria relação do casal.
Quando o corpo começa a associar intimidade à dor
Imagine saber que uma situação que deveria ser prazerosa pode terminar em dor.
Com o tempo, isso pode gerar uma antecipação: a mulher começa a pensar que vai doer antes mesmo de a relação acontecer.
E esse medo pode fazer com que ela fique mais tensa, evite determinadas posições, interrompa a relação ou simplesmente passe a evitar o sexo.
Isso não significa falta de desejo ou falta de interesse pelo parceiro.
Às vezes, é o próprio medo da dor que começa a ocupar espaço na intimidade.
Estudos qualitativos mostram que mulheres com endometriose podem desenvolver diferentes estratégias para lidar com a dor, incluindo interromper ou evitar relações. A experiência também pode afetar autoestima, percepção do próprio corpo e bem-estar emocional.
E o parceiro também pode não saber o que está acontecendo
Nem sempre a mulher consegue explicar exatamente o que sente.
Ela pode pensar:
“Ele vai achar que eu não quero mais.”
“Será que ele vai entender?”
“Será que estou exagerando?”
Do outro lado, o parceiro pode interpretar o afastamento como falta de desejo, rejeição ou desinteresse, quando, na verdade, existe uma dor que nem sempre é fácil de explicar.
É aí que a comunicação passa a ser importante.
Pesquisas sobre endometriose e relacionamento mostram que a doença pode interferir na vida sexual e na relação do casal, além de gerar sentimentos como frustração, preocupação e impotência nos parceiros.
Isso não significa que a endometriose necessariamente prejudique um relacionamento.
Significa que uma dor que não é conversada pode acabar ocupando um espaço que deveria ser ocupado pela intimidade.
A dor durante o sexo também merece investigação médica
Outro ponto importante é que não devemos simplesmente aceitar a dor como “parte da endometriose”.
A localização das lesões pode ter relação com a dor profunda durante a relação, mas existem diferentes mecanismos envolvidos e diferentes causas possíveis para a dor sexual. Por isso, é importante entender quando dói, onde dói, se a dor acontece durante ou depois da relação e se existe relação com o ciclo menstrual.
Essas informações ajudam o ginecologista a compreender melhor o quadro.
E a investigação não deve se limitar à pergunta:
“Você sente dor durante a relação?”
É preciso entender como essa dor acontece e o quanto ela está interferindo na vida daquela mulher.
Tratar a endometriose pode ajudar, mas o cuidado não termina aí
Quando existe uma causa identificável para a dor, tratá-la pode trazer melhora importante.
Estudos que avaliaram mulheres com endometriose mostram que a redução da dor sexual pode estar associada a melhora em diferentes aspectos da qualidade de vida e da função sexual.
Mas algumas mulheres podem continuar apresentando dor mesmo depois do tratamento da doença.
Nesses casos, é importante não concluir que “o tratamento não funcionou” ou que a paciente simplesmente precisa se acostumar.
A dor pode envolver diferentes mecanismos e, dependendo do caso, o cuidado pode precisar de outras abordagens além do tratamento específico da endometriose.
E o casal?
O tratamento também pode incluir uma conversa que muitas vezes fica esquecida: como essa dor está afetando a vida a dois?
Falar sobre o problema pode ajudar o casal a compreender que evitar uma relação por causa da dor não é necessariamente rejeitar o outro.
É uma forma de proteção diante de uma experiência que se tornou difícil.
E, quando necessário, profissionais especializados em saúde sexual ou terapia de casal podem fazer parte desse cuidado.
A endometriose é uma doença da mulher, mas seus efeitos podem alcançar diferentes áreas da vida.
Por isso, quando a dor durante o sexo passa a fazer parte da rotina, ela merece ser levada a sério tanto quanto qualquer outro sintoma da doença.
Porque intimidade também faz parte da qualidade de vida.
E nenhuma mulher deveria precisar escolher entre estar próxima de quem ama e sentir dor.
Referências
A systematic review on the effects of endometriosis on sexuality and couple’s relationship.
The Subjective Experience of Dyspareunia in Women with Endometriosis: A Systematic Review with Narrative Synthesis of Qualitative Research.
Impact of endometriosis on female sexual function: an updated systematic review and meta-analysis.
Painful sexual intercourse, quality of life and sexual function in patients with endometriosis: not just deep dyspareunia. 2024.
Sexual Function of Patients with Deep Endometriosis after Surgical Treatment: A Systematic Review.
European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis.




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