Ultrassom convencional x ultrassom especializado para endometriose: qual a diferença?

“Meu ultrassom deu normal. Então eu não tenho endometriose?”
Essa é uma dúvida comum entre mulheres que continuam convivendo com cólicas intensas, dor pélvica, dor durante a relação ou sintomas intestinais e urinários mesmo depois de realizarem exames sem alterações importantes.
O primeiro ponto para entender é que nem todo ultrassom pélvico é realizado com o objetivo específico de procurar endometriose.
O ultrassom ginecológico convencional é um exame importante e permite avaliar diversas alterações no útero, ovários e outras estruturas da pelve.
Quando existe suspeita de endometriose, porém, a investigação pode exigir uma avaliação mais direcionada.
O ultrassom convencional não é um exame “pior”
A diferença não está entre um exame bom e outro ruim.
O que muda é principalmente o objetivo e a forma como a pelve é examinada.
No ultrassom ginecológico convencional, são avaliadas estruturas como útero, endométrio e ovários, permitindo identificar miomas, cistos, alterações ovarianas e diversas outras condições.
Algumas manifestações da endometriose também podem aparecer nesse exame, principalmente endometriomas ovarianos e determinadas lesões mais evidentes.
Mas um ultrassom pélvico de rotina não necessariamente inclui todas as etapas e manobras direcionadas à procura da endometriose.
Por isso, diante de sintomas sugestivos, um ultrassom convencional sem alterações não é suficiente, isoladamente, para excluir a doença.
Então, o que muda no ultrassom especializado para endometriose?
A investigação passa a procurar a doença de maneira sistemática.
Além da avaliação do útero e dos ovários, o exame direcionado pode observar regiões frequentemente relacionadas à endometriose profunda e procurar sinais diretos e indiretos da doença.
Entre as estruturas avaliadas podem estar:
ovários;
região posterior ao útero;
ligamentos uterossacros;
região retrocervical;
intestino;
bexiga;
ureteres;
outras regiões da pelve, de acordo com o protocolo utilizado.
Também podem ser realizadas manobras dinâmicas durante o ultrassom.
Um exemplo é observar se os órgãos pélvicos deslizam normalmente uns sobre os outros. A redução dessa mobilidade pode sugerir aderências relacionadas à endometriose.
Portanto, não se trata apenas de “olhar mais lugares”.
O exame passa a procurar características específicas da doença e a entender como ela pode estar modificando a anatomia e a mobilidade das estruturas pélvicas.
Por que a experiência de quem realiza o exame faz diferença?
A endometriose não aparece sempre da mesma maneira.
Ela pode comprometer diferentes estruturas, assumir diferentes formas e apresentar sinais mais ou menos evidentes no ultrassom.
Por isso, consensos internacionais reforçam a importância de protocolos padronizados e da experiência do profissional na avaliação da endometriose.
Um dos principais protocolos utilizados internacionalmente é o IDEA (International Deep Endometriosis Analysis), criado para estabelecer uma maneira sistemática de avaliar e descrever os achados da endometriose ao ultrassom.
Em 2024, um consenso internacional envolvendo sociedades como ESHRE, ESGE, ISUOG, AAGL e ESUR também reforçou o papel dos métodos de imagem especializados no diagnóstico não invasivo e no planejamento de pacientes com suspeita de endometriose profunda.
O ultrassom especializado consegue mapear a doença?
Esse é um dos seus principais objetivos.
Além de identificar sinais compatíveis com endometriose, o exame pode ajudar a determinar onde estão as lesões e quais estruturas podem estar comprometidas.
Essa informação se torna especialmente importante quando existe possibilidade de tratamento cirúrgico.
Imagine, por exemplo, uma paciente com suspeita de endometriose próxima ao intestino, à bexiga ou aos ureteres.
Conhecer esse comprometimento antes da cirurgia ajuda o cirurgião a compreender melhor a extensão da doença, planejar o procedimento e avaliar previamente se será necessária a participação de outros especialistas.
Por isso, em determinadas situações, o ultrassom deixa de ser apenas um exame para responder “existe endometriose?” e passa a ajudar a responder também:
Onde ela está? Qual a extensão? Quais estruturas estão envolvidas?
Qual é a precisão desse exame?
Os resultados variam conforme a localização e o tipo da doença.
Um estudo prospectivo publicado em 2025 avaliou 125 pacientes com suspeita de endometriose que realizaram ultrassom transvaginal seguindo o protocolo IDEA antes da laparoscopia.
Para endometriomas ovarianos, a sensibilidade ficou próxima de 95%. Nas diferentes localizações de endometriose profunda avaliadas, a sensibilidade variou de aproximadamente 84% a 100%.
Isso mostra o quanto o ultrassom especializado pode ser uma ferramenta importante para determinadas formas da doença.
Mas existe uma ressalva fundamental.
E a endometriose superficial?
Esse continua sendo um dos grandes desafios.
As lesões superficiais podem ser pequenas e difíceis de identificar pelos métodos de imagem.
Isso significa que um ultrassom especializado normal também não consegue excluir absolutamente todas as formas de endometriose.
A própria ciência continua avançando nesse ponto.
Em 2025, o grupo internacional IDEA publicou uma atualização específica propondo uma avaliação ultrassonográfica padronizada também para a endometriose superficial, refletindo justamente o esforço atual para melhorar a identificação dessas lesões.
Por isso, nenhum resultado deve ser interpretado isoladamente.
Meu ultrassom deu normal, mas continuo com sintomas. E agora?
Um exame normal não significa automaticamente que os sintomas devam ser ignorados.
Também não significa que a mulher necessariamente tenha endometriose.
Significa que é preciso analisar qual exame foi realizado, qual protocolo foi utilizado, quais são os sintomas e qual continua sendo a suspeita clínica.
Dependendo do caso, pode ser necessário realizar um ultrassom direcionado, complementar a investigação com ressonância magnética ou considerar outras possibilidades diagnósticas.
É justamente por isso que a investigação da endometriose não deve depender de uma única informação.
Ultrassom convencional ou especializado: afinal, qual devo fazer?
Não existe necessidade de toda mulher realizar um ultrassom especializado para endometriose.
O exame direcionado ganha importância principalmente quando existem sintomas ou histórico que levantam a suspeita da doença, quando é necessário avaliar sua extensão ou quando existe planejamento de tratamento.
O mais importante é que o exame escolhido responda à pergunta que precisa ser investigada.
Se você continua apresentando sintomas mesmo depois de exames sem alterações, uma avaliação especializada pode ajudar a entender se é necessário direcionar a investigação para endometriose ou buscar outras possíveis causas.
Referências
Society of Radiologists in Ultrasound (SRU). Society of Radiologists in Ultrasound Consensus on Routine Pelvic US for Endometriosis. Radiology. 2024.
Condous G, et al. Non-invasive imaging techniques for diagnosis of pelvic deep endometriosis and endometriosis classification systems: an International Consensus Statement. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2024;64(1):129–144.
Guerriero S, et al. Systematic approach to sonographic evaluation of the pelvis in women with suspected endometriosis: consensus opinion from the International Deep Endometriosis Analysis (IDEA) group. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2016;48(3):318–332.
Mick I, et al. Diagnostic Accuracy of Transvaginal Ultrasonography for Endometriosis According to the International Deep Endometriosis Analysis Consensus. 2025.
International Deep Endometriosis Analysis (IDEA) Group. Addendum to consensus opinion: sonographic evaluation of superficial endometriosis. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. 2025.




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