Reposição hormonal na menopausa: o que é, para quem é indicada e o que mudou nas diretrizes
- há 3 dias
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A reposição hormonal é um dos temas mais mal compreendidos da medicina da mulher. Nos últimos vinte anos, uma combinação de estudos interpretados de forma incompleta, manchetes alarmistas e medo acumulado fez com que muitas mulheres abandonassem ou nunca iniciassem um tratamento que, quando bem indicado, tem potencial real de mudar a qualidade de vida. Este texto existe para organizar o que se sabe hoje, com base nas diretrizes mais recentes da FEBRASGO e da SOBRAC.
O que acontece com o corpo na menopausa
A menopausa não é um evento único. É um processo gradual que começa anos antes da última menstruação, chamado de climatério, em que os ovários vão reduzindo a produção de estrogênio e progesterona. Esses dois hormônios não regulam apenas o ciclo menstrual. Eles têm ação em praticamente todos os sistemas do corpo: no cérebro, nos vasos sanguíneos, nos ossos, na pele, na mucosa vaginal e na bexiga.
Quando os níveis caem, os sintomas aparecem. As ondas de calor, chamadas de fogachos, são os mais conhecidos. Mas a lista é bem maior: insônia, irritabilidade, alteração de humor, queda de libido, ressecamento vaginal, dor durante a relação sexual, urgência urinária e perda de memória são queixas frequentes e legítimas. Não são frescura. São consequência direta da queda hormonal.
Além dos sintomas imediatos, a deficiência prolongada de estrogênio tem consequências silenciosas. Os ossos perdem densidade com mais velocidade, aumentando o risco de osteoporose. O perfil cardiovascular piora. A proteção que o estrogênio oferece aos vasos sanguíneos desaparece. Por isso, mulheres que entram na menopausa mais cedo, sem acompanhamento, acumulam riscos que se manifestam anos depois.
O que é a reposição hormonal
A terapia hormonal, também chamada de reposição hormonal ou TRH, consiste em repor os hormônios que os ovários deixaram de produzir em quantidade suficiente. O objetivo é aliviar os sintomas da menopausa e proteger o organismo das consequências da deficiência hormonal prolongada.
A formulação depende do caso clínico de cada mulher. Mulheres que ainda têm útero precisam usar estrogênio combinado com progesterona, porque o estrogênio isolado estimula o endométrio, que é o tecido que reveste internamente o útero, e esse estímulo sem controle aumenta o risco de câncer uterino. A progesterona entra exatamente para proteger esse tecido. Já mulheres que passaram por histerectomia, ou seja, a retirada do útero, podem usar estrogênio isolado, sem a necessidade de adicionar progesterona.
A via de administração também varia. O estrogênio pode ser usado em comprimido, gel, adesivo ou creme. A progesterona mais utilizada atualmente é a micronizada, que é a versão mais próxima do hormônio natural do corpo e tem um perfil de segurança melhor do que as progestinas sintéticas mais antigas. O Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024, elaborado pela SOBRAC em parceria com a FEBRASGO, reforça que a via transdérmica, ou seja, pelo gel ou adesivo, é a preferida em muitos casos porque evita a passagem pelo fígado e reduz riscos associados à via oral.
Para quem a reposição hormonal é indicada
A principal indicação é sintomática. Quando os sintomas da menopausa comprometem a qualidade de vida, a reposição hormonal é o tratamento mais eficaz disponível. Não existe alternativa com o mesmo grau de eficácia para o conjunto de sintomas que a queda hormonal provoca.
Além do alívio dos sintomas, a terapia hormonal é indicada para proteção óssea em mulheres com risco de osteoporose, para mulheres com menopausa precoce, ou seja, antes dos 40 anos, e para aquelas com menopausa cirúrgica, que é a menopausa causada pela retirada dos ovários. Nesses dois últimos casos, a reposição não é apenas uma opção de conforto. É uma medida de saúde a longo prazo, porque a exposição prolongada à deficiência hormonal antes da idade esperada aumenta o risco de doença cardiovascular, osteoporose e demência.
A FEBRASGO e a SOBRAC estabelecem o conceito de janela de oportunidade: o período de maior benefício é quando a reposição é iniciada nos primeiros dez anos após a menopausa ou antes dos 60 anos. Dentro dessa janela, os benefícios cardiovasculares e para a saúde óssea superam amplamente os riscos. Iniciar a reposição fora dessa janela, em mulheres com mais de 60 anos e mais de dez anos de menopausa sem hormônio, pode não trazer os mesmos benefícios e, em alguns casos, aumentar riscos. Por isso, o momento de início importa tanto quanto a decisão de iniciar.
O que o estudo WHI disse e o que foi mal interpretado
Em 2002, um grande estudo americano chamado Women's Health Initiative, o WHI, foi interrompido antes do prazo porque os dados preliminares mostravam aumento do risco de câncer de mama, doença cardiovascular e trombose no grupo que usava reposição hormonal. A repercussão foi imediata e global. As prescrições caíram drasticamente. Muitas mulheres interromperam o tratamento por conta própria. O medo se instalou e, em muitos consultórios, permanece até hoje.
O problema é que a conclusão que circulou não contava a história completa. O estudo usou estrogênio equino conjugado, um hormônio sintético derivado de éguas prenhes, combinado com acetato de medroxiprogesterona, uma progestina sintética. Nenhum dos dois é o tipo de hormônio que se usa como primeira escolha hoje. Além disso, a população estudada tinha em média 63 anos, ou seja, mulheres que já estavam há mais de uma década fora da janela de oportunidade, muitas com fatores de risco cardiovascular preexistentes.
Quando os dados do WHI foram analisados por faixa etária, o resultado foi diferente. Mulheres entre 50 e 59 anos, dentro da janela de oportunidade, tiveram menor mortalidade geral e menor incidência de doença cardíaca do que as do grupo placebo. O que o estudo mostrou de prejudicial ocorreu predominantemente em mulheres mais velhas, com mais tempo de menopausa, usando formulações hoje consideradas ultrapassadas.
Em 2025, a agência regulatória americana FDA anunciou a remoção das advertências em caixa dos rótulos de medicamentos hormonais para menopausa, reconhecendo que os alertas não refletiam mais as evidências disponíveis. A FEBRASGO comemorou publicamente a decisão, reforçando que os riscos podem ser equilibrados com avaliação correta, individualização do tratamento e acompanhamento adequado.
Os riscos reais que precisam ser avaliados
A reposição hormonal tem riscos, e eles precisam ser avaliados individualmente. O mais discutido é o câncer de mama. A terapia combinada de estrogênio com progestina sintética, usada por mais de cinco anos, está associada a um pequeno aumento de risco. Esse risco é menor quando se usa progesterona micronizada, que é a versão mais próxima do hormônio natural do corpo. O estrogênio isolado, usado em mulheres sem útero, não mostrou aumento desse risco nas análises de longo prazo.
O risco de trombose existe com o estrogênio em comprimido, porque ele passa pelo fígado antes de entrar na circulação. Com o gel ou adesivo, esse risco é bem menor, porque o hormônio vai direto para o sangue. Por isso, mulheres com predisposição a trombose não precisam necessariamente ser excluídas da reposição. Só precisam usar a via certa.
Existem contraindicações claras: histórico de câncer de mama, tumores hormônio-sensíveis, trombose prévia, infarto ou AVC e doença hepática grave. Nesses casos, a reposição não é indicada como regra. Mas isso é avaliado caso a caso, antes de qualquer prescrição.
Quanto tempo usar
Não existe um prazo fixo. As diretrizes brasileiras e internacionais apontam que não há um tempo máximo pré-determinado para o uso da terapia hormonal. A decisão de manter ou interromper deve ser revisada periodicamente, considerando os sintomas da mulher, os exames de acompanhamento e eventuais mudanças no seu perfil de saúde.
O que se sabe é que o risco de câncer de mama associado à terapia combinada aumenta com o tempo de uso, especialmente após cinco anos. Por isso, o acompanhamento regular é essencial para que a decisão de continuar seja sempre baseada em dados atualizados e não em um protocolo fixo.
Interromper a reposição hormonal também não é algo que deve ser feito abruptamente sem orientação médica. A descontinuação pode ser gradual, e em alguns casos os sintomas retornam com intensidade ao interromper, o que faz parte da avaliação clínica.
O que não é reposição hormonal
Vale deixar claro o que não se enquadra nas recomendações das sociedades médicas. Os implantes hormonais, os famosos chips, não têm registro na ANVISA e foram proibidos para comercialização no Brasil em 2024. As dosagens usadas nesses dispositivos costumam ser muito superiores às recomendadas, o controle da liberação hormonal é impreciso e a remoção, quando necessária, é tecnicamente difícil. Não é reposição hormonal. É uma prática sem regulação adequada e sem evidência de segurança a longo prazo.
A reposição hormonal regulamentada, com formulações registradas, doses controladas e acompanhamento médico, é algo completamente diferente.
Em resumo
A reposição hormonal é um tratamento eficaz, com indicações bem estabelecidas e riscos conhecidos que podem ser gerenciados quando a avaliação é feita corretamente. O medo que se instalou após 2002 não tem mais sustentação nas evidências atuais, especialmente para mulheres que iniciam o tratamento na janela de oportunidade, com as formulações disponíveis hoje e sob acompanhamento médico adequado.
A decisão de fazer ou não a reposição é individual. Depende dos sintomas, do histórico clínico, dos fatores de risco e do que a mulher considera importante para a sua qualidade de vida. O que não deveria acontecer é essa decisão ser tomada com base em um medo que a ciência já revisou.
Se você está na fase do climatério ou da menopausa e ainda não teve uma conversa aprofundada sobre esse tema com seu ginecologista, este pode ser o momento certo para isso.
Referências
Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024. SOBRAC e FEBRASGO, 2024.
FEBRASGO. Diretrizes Brasileiras sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024.
The North American Menopause Society. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of NAMS. Menopause, 2022;29(7):767-794.
Manson JE et al. Menopausal hormone therapy and long-term all-cause and cause-specific mortality. JAMA, 2017;318(10):927-938.
FDA. Remoção de advertências em caixa de medicamentos hormonais para menopausa, 2025.


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