Como escolher um obstetra e por que isso importa desde antes da gravidez
- há 2 dias
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A escolha do obstetra não é uma decisão que deve ser tomada às pressas, depois que a gravidez já foi confirmada. Ela começa antes e quanto mais cedo for feita, melhor para a gestante e para o bebê.
O pré-natal de qualidade é um dos determinantes mais estudados para desfechos seguros na gestação. O Ministério da Saúde estima que até 92% das mortes maternas no Brasil são evitáveis, sendo as principais causas transtornos hipertensivos, hemorragia e infecção, condições que um bom acompanhamento é capaz de identificar e tratar antes que se tornem emergências. Não é exagero dizer que o médico que acompanha a gestação pode mudar o desfecho dela.
O que faz um obstetra ao longo da gestação
O trabalho do obstetra começa no planejamento. Antes da concepção, ele avalia o estado de saúde da mulher, identifica condições que precisam de ajuste, como hipertensão ou diabetes pré-existente, orienta sobre suplementação de ácido fólico, que é uma vitamina do complexo B cuja ingestão nas semanas anteriores à concepção reduz o risco de defeitos no tubo neural do bebê, e discute os riscos específicos daquela paciente.
Durante o pré-natal, o obstetra acompanha o desenvolvimento fetal por ultrassom, solicita exames de rotina a cada trimestre, monitora a pressão arterial e o ganho de peso, rastreia infecções como toxoplasmose, sífilis e estreptococo do grupo B, e estabelece o plano para o parto. Cada consulta tem um propósito clínico definido. Não é protocolo por protocolo. É investigação contínua do que pode dar errado antes que dê.
No parto, o obstetra avalia as condições clínicas da mãe e do bebê em tempo real, define a via e o momento mais seguro para o nascimento, e maneja as intercorrências quando elas aparecem. Hemorragia pós-parto, descolamento prematuro de placenta, sofrimento fetal, essas são situações que exigem reconhecimento imediato e conduta rápida.
No puerpério, que é o período de recuperação após o parto e que dura entre 45 e 60 dias, o obstetra acompanha a involução uterina, monitora sinais de infecção, avalia o estado emocional da paciente e está atento à depressão pós-parto. Dados da Fiocruz indicam que cerca de 25% das mães brasileiras desenvolvem depressão pós-parto, e a identificação precoce dessa condição depende, em grande parte, da qualidade do vínculo com o médico que a acompanha.
Por que a experiência do obstetra importa
A obstetrícia é uma especialidade que exige julgamento clínico rápido. Saber o momento certo de indicar uma cesárea, de iniciar ocitocina para estimular as contrações, de solicitar uma ressonância magnética para investigar uma suspeita de placenta prévia. Essas decisões não são feitas por protocolo. São feitas por experiência, por raciocínio clínico e pelo histórico específico daquela paciente.
O Brasil tem a segunda maior taxa de cesáreas do mundo, com cerca de 55% dos partos sendo cirúrgicos, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que esse índice fique em torno de 15%. Parte desse excesso está associada à indicação inadequada, à falta de discussão antecipada sobre o plano de parto e à ausência de um vínculo real entre a gestante e o médico que vai conduzi-la. Quando há confiança construída ao longo do pré-natal, as decisões são tomadas juntas, com mais informação e menos ansiedade dos dois lados.
O que observar ao escolher
A formação é o ponto de partida. Verificar se o médico é especialista em ginecologia e obstetrícia, se tem residência médica na área e se está vinculado a uma instituição hospitalar com estrutura adequada para o tipo de parto desejado é o mínimo.
Além disso, vale avaliar como o profissional se comunica. Um obstetra que explica os exames, que discute os riscos com clareza e sem alarmismo e que inclui a paciente nas decisões tende a gerar gestações com mais adesão ao tratamento e menos intercorrências evitáveis. A autonomia informada da paciente é parte do cuidado, não um detalhe secundário.
Para gestações de risco, que incluem condições como hipertensão, diabetes, gravidez múltipla ou histórico de perdas anteriores, é essencial que o obstetra tenha experiência específica com esse perfil e acesso a suporte de medicina fetal quando necessário.
Quando iniciar o acompanhamento
O protocolo da Febrasgo e as diretrizes da OMS recomendam que o pré-natal comece o mais precocemente possível, idealmente antes das 12 semanas. A primeira consulta já permite avaliar o histórico clínico da paciente, identificar fatores de risco, solicitar os exames iniciais e, quando indicado, iniciar profilaxia com ácido acetilsalicílico em baixa dose para prevenção de pré-eclâmpsia, que é uma complicação hipertensiva da gestação responsável por uma parcela significativa das mortes maternas no país.
Em resumo
O obstetra que acompanha a gestação não é apenas o médico que vai estar na sala de parto. Ele é o profissional que tem o histórico mais completo da paciente, que conhece seus riscos, que discutiu com ela o que fazer em cada cenário e que vai tomar as decisões mais importantes do processo com ela, não por ela.
Escolher esse profissional com cuidado, desde o planejamento da gravidez, é uma das decisões mais diretas que uma mulher pode tomar para proteger sua saúde e a do bebê.
Referências
Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Atenção ao Pré-Natal de Baixo Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2012.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Protocolo Febrasgo: Assistência Pré-Natal. FEBRASGO, 2018.
Organização Mundial da Saúde. Recomendações da OMS sobre cuidados pré-natais para uma experiência positiva na gravidez. Genebra: OMS, 2016.
Lima et al. Mortalidade materna no Brasil: causas e estratégias de redução. Brazilian Journal of Health Review, 2023.
Nakamura M. Mortalidade materna no Brasil: panorama e desafios. Fiocruz/Febrasgo, 2022.


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