Novas tecnologias no diagnóstico da endometriose: o que já é realidade e o que ainda está em estudo?

Durante muitos anos, uma das maiores dificuldades relacionadas à endometriose esteve justamente em chegar ao diagnóstico. A doença pode se manifestar de formas muito diferentes, algumas lesões são difíceis de visualizar e nem sempre os sintomas correspondem à extensão encontrada nos exames.
Esse cenário, porém, vem mudando. Além dos métodos de imagem que já fazem parte da investigação atual, novas tecnologias estão sendo estudadas para identificar a endometriose de maneira mais precisa e menos invasiva. Entre elas estão novos exames de imagem, testes de saliva, biomarcadores no sangue e ferramentas de inteligência artificial.
É importante, no entanto, separar o que já faz parte da prática médica do que ainda está sendo validado. Algumas dessas tecnologias começaram a ser avaliadas ou utilizadas de forma controlada em determinados países, enquanto outras permanecem em fases iniciais de pesquisa.
O diagnóstico da endometriose já não depende necessariamente de uma cirurgia
Uma das mudanças mais importantes aconteceu em 2026, quando o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) publicou uma nova diretriz sobre o diagnóstico da endometriose.
O documento reconhece a possibilidade de um diagnóstico clínico presuntivo, considerando a história da paciente, os sintomas, o exame físico e os métodos de imagem. Isso permite que, em situações apropriadas, a investigação e o tratamento sejam conduzidos sem que a paciente precise passar por uma cirurgia exclusivamente para confirmar a doença.
Isso não significa que a cirurgia deixou de ter importância. Ela continua sendo fundamental em casos selecionados, principalmente quando existe indicação de tratamento cirúrgico. A mudança está em não considerar a laparoscopia uma etapa obrigatória para todas as pacientes antes do início do cuidado.
Ao mesmo tempo, os exames de imagem também evoluíram. O ultrassom especializado e a ressonância magnética conseguem identificar e mapear diferentes formas da endometriose, principalmente a doença profunda e os endometriomas ovarianos.
Ainda existe, porém, um desafio importante: algumas lesões, especialmente as superficiais, continuam difíceis de visualizar. É justamente nesse ponto que várias das novas tecnologias estão tentando avançar.
1. SPECT-CT com um novo marcador: uma forma diferente de procurar as lesões
Última atualização relevante: 2026
O estudo DETECT, publicado em 2026 no The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women's Health, investigou uma abordagem diferente para encontrar lesões de endometriose.
Os pesquisadores utilizaram um marcador chamado 99mTc-maraciclatide, que se liga a estruturas associadas à formação de novos vasos sanguíneos, processo observado nas lesões de endometriose. Depois da administração desse marcador, um exame chamado SPECT-CT permite identificar os locais onde houve maior concentração da substância.
Na prática, a diferença está no que o exame procura. Em vez de depender somente das alterações anatômicas provocadas pela doença, a técnica busca também um processo biológico associado às lesões.
O que o estudo encontrou?
Foram recrutadas 20 participantes, sendo que 19 completaram a comparação entre o novo exame e os achados cirúrgicos. Em 16 das 19 participantes houve concordância entre a imagem e o que foi encontrado durante a cirurgia, correspondendo a 84%.
A sensibilidade calculada foi de 82% e a especificidade, de 100%. Um dos resultados que mais chamou atenção foi a identificação de endometriose peritoneal superficial, justamente uma das formas que podem ser difíceis de visualizar pelos métodos de imagem disponíveis atualmente. O exame também identificou dois casos de endometriose torácica.
Os resultados são promissores, mas ainda não significam que o exame possa ser incorporado à rotina. Trata-se de um estudo exploratório de fase 2 e com poucas participantes. Estudos maiores serão necessários para confirmar o desempenho da tecnologia.
Situação em agosto de 2026: em estudo.
2. Teste de saliva: é possível encontrar sinais da endometriose dessa forma?
Últimas atualizações relevantes: 2025 e 2026
Outra linha de pesquisa busca identificar a endometriose a partir de uma amostra de saliva. Um dos testes que mais avançaram nesse campo é o Endotest, que analisa pequenas moléculas chamadas microRNAs.
Os microRNAs participam da regulação da atividade dos genes. O teste analisa um conjunto dessas moléculas em busca de uma espécie de assinatura molecular associada à endometriose. A principal vantagem dessa abordagem seria permitir uma investigação não invasiva a partir de uma simples coleta de saliva.
Em 2025, o Ministério da Saúde da França iniciou uma avaliação do Endotest dentro de um programa voltado à inovação diagnóstica. Já em julho de 2026, o NICE, no Reino Unido, publicou uma recomendação preliminar envolvendo o Endotest e outra tecnologia, o EndoSure, para geração de novas evidências dentro do sistema público de saúde britânico.
As pesquisas também continuam avançando. Um estudo publicado em julho de 2026 analisou amostras de 176 mulheres com endometriose e 124 mulheres do grupo controle e identificou dez microRNAs associados à atividade da doença.
Apesar dos resultados, ainda não estamos diante de um teste diagnóstico utilizado de forma universal. É necessário continuar avaliando seu desempenho em diferentes populações e contextos clínicos.
Situação em agosto de 2026: em avaliação e uso controlado em alguns países.
3. EndoSure: sinais da atividade gastrointestinal também estão sendo estudados
Última atualização relevante: julho de 2026
O EndoSure segue uma proposta diferente dos exames de imagem e dos testes moleculares. A tecnologia utiliza sensores colocados externamente sobre o abdômen para registrar sinais elétricos relacionados à atividade gastrointestinal.
Esses dados são analisados em busca de padrões que possam estar associados à endometriose. Em julho de 2026, o NICE incluiu a tecnologia, juntamente com o Endotest, em uma recomendação preliminar para utilização enquanto novas evidências são produzidas.
Isso coloca o EndoSure em uma etapa intermediária interessante: a tecnologia já avançou além dos estudos iniciais, mas ainda precisa demonstrar com maior clareza qual será seu papel dentro da investigação da endometriose.
Situação em agosto de 2026: em avaliação e geração de evidências no Reino Unido.
4. Um exame de sangue poderá diagnosticar endometriose?
Essa é uma das possibilidades mais estudadas atualmente. Diferentes grupos de pesquisa procuram biomarcadores presentes no sangue que possam ajudar a identificar a doença sem a necessidade de procedimentos invasivos.
Uma dessas linhas envolve novamente os microRNAs. Um estudo publicado na Human Reproduction em 2026 avaliou um modelo baseado em microRNAs encontrados no sangue. Embora os resultados tenham demonstrado potencial, o desempenho ainda não foi suficiente para estabelecer essa estratégia como teste diagnóstico de rotina.
Outra pesquisa publicada no mesmo ano encontrou possíveis assinaturas de microRNAs no sangue, na saliva e no muco vaginal. Esses achados ajudam a entender quais marcadores podem ser úteis no futuro, mas ainda precisam ser confirmados em estudos maiores.
Por isso, é importante ter cuidado com a expressão “exame de sangue para endometriose”. Atualmente, não existe um teste sanguíneo isolado estabelecido para diagnosticar a doença na prática clínica.
Situação em agosto de 2026: em pesquisa.
5. Hormônios podem fornecer novas pistas sobre a doença
Última atualização relevante: julho de 2026
Outra descoberta recente veio de pesquisadores da Universidade de Edimburgo. Um estudo publicado no European Journal of Endocrinology identificou diferenças no metabolismo dos andrógenos em mulheres com endometriose.
Os andrógenos são hormônios presentes também no organismo feminino, e os pesquisadores observaram alterações em determinados padrões hormonais nas participantes com a doença. Essas diferenças podem contribuir para compreender melhor a biologia da endometriose e, futuramente, ajudar no desenvolvimento de novos biomarcadores.
É importante destacar que esse achado não significa que uma dosagem hormonal já consiga diagnosticar endometriose. A pesquisa fornece uma nova pista científica que ainda precisa ser explorada e validada.
Situação em agosto de 2026: em pesquisa para identificação de possíveis biomarcadores.
6. Inteligência artificial pode ajudar na interpretação dos exames?
Última atualização relevante: maio de 2026
A inteligência artificial também começou a ocupar espaço nas pesquisas sobre diagnóstico da endometriose. Nesse caso, a proposta não é necessariamente substituir os exames existentes, mas aumentar a capacidade de reconhecer padrões nas imagens.
Uma meta-análise publicada em maio de 2026 reuniu sete estudos, com 2.737 pacientes e 6.061 imagens, avaliando modelos de inteligência artificial aplicados ao ultrassom para identificação de endometriomas ovarianos. Os modelos apresentaram 91% de sensibilidade e 95% de especificidade.
Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados dentro do contexto das pesquisas disponíveis. Os estudos apresentam diferenças metodológicas e muitos foram realizados em cenários controlados. Por isso, a inteligência artificial ainda deve ser entendida como uma possível ferramenta de apoio ao especialista, e não como substituta da avaliação médica.
Situação em agosto de 2026: em validação para aplicação clínica mais ampla.
O que já é realidade e o que ainda está em estudo?
Tecnologia
| O que busca identificar
| Situação em agosto de 2026
|
Ultrassom especializado
| Lesões e sinais anatômicos da endometriose
| Já utilizado na prática
|
Ressonância magnética
| Lesões e mapeamento de determinadas formas da doença
| Já utilizada na prática
|
SPECT-CT + 99mTc-maraciclatide
| Processos associados à formação de novos vasos nas lesões
| Em estudo
|
Endotest
| Assinatura de microRNAs na saliva
| Avaliação/uso controlado em alguns países
|
EndoSure
| Padrões relacionados à atividade gastrointestinal
| Avaliação e geração de evidências
|
Biomarcadores sanguíneos
| Assinaturas moleculares e hormonais
| Em pesquisa
|
Inteligência artificial
| Reconhecimento de padrões nos exames de imagem
| Em validação
|
O futuro provavelmente não estará em um único exame
A endometriose é uma doença complexa, com diferentes formas de apresentação e diferentes localizações. Por isso, é possível que o futuro do diagnóstico não esteja em encontrar um único exame capaz de resolver todos os casos.
O caminho que começa a se desenhar é o da combinação de informações: história clínica, sintomas, exame físico, ultrassom especializado, ressonância magnética e, futuramente, biomarcadores e outras tecnologias poderão contribuir de maneiras diferentes para a investigação.
O objetivo desses avanços é tornar o diagnóstico mais preciso e menos invasivo, além de reduzir o intervalo entre o início dos sintomas e a identificação da doença.
Enquanto novas tecnologias continuam sendo estudadas, a investigação especializada com os recursos disponíveis atualmente permanece fundamental. Para mulheres com sintomas persistentes ou suspeita de endometriose, não é necessário esperar que essas tecnologias cheguem à rotina para começar a buscar respostas.
Referências
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Diagnosis of Endometriosis. Clinical Practice Guideline No. 11. 2026.
Gibbons T, et al. Assessment of endometriosis angiogenesis using 99mTc-maraciclatide imaging (DETECT): a single-centre, exploratory, open-label, non-randomised, phase 2 study. The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women's Health. 2026.
Acessar o estudo DETECT no The Lancet
Ministère de la Santé — França. Expérimentation d'un test salivaire Endotest® pour améliorer les conditions de diagnostic de l'endométriose. Atualização: março de 2025.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Atualização sobre Endotest e EndoSure. 7 de julho de 2026.
Frontiers in Molecular Biosciences. Estudo sobre microRNAs salivares associados à endometriose. 22 de julho de 2026.
Human Reproduction. Estudo sobre microRNAs séricos e diagnóstico da endometriose. 2026.
European Journal of Endocrinology. Estudo sobre metabolismo de andrógenos em mulheres com endometriose. Julho de 2026.
Abdominal Radiology. Meta-análise sobre inteligência artificial e ultrassonografia para identificação de endometriomas. Maio de 2026.




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