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Endometriose torácica: o que é e por que ela pode causar sintomas fora da pelve?

há 15 horas
5 min de leitura


Quando se fala em endometriose, a primeira associação costuma ser com cólicas intensas, dor pélvica, desconforto durante a relação ou dificuldade para engravidar. Mas a doença não está necessariamente restrita à região pélvica.

São lesões de endometriose que podem estar presentes no diafragma, na pleura e, mais raramente, no próprio tecido pulmonar ou nas vias aéreas. Quando essas manifestações provocam sintomas no tórax, falamos em síndrome da endometriose torácica. (PubMed Central (PMC))

É uma condição mais rara, mas importante principalmente porque os sintomas podem parecer, à primeira vista, completamente desconectados de uma doença ginecológica.


Como a endometriose pode chegar ao tórax?


A endometriose acontece quando tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste a parte interna do útero, está presente fora dele. Na maioria das pacientes, as lesões estão localizadas na pelve, mas existem formas extrapelvianas da doença. (PubMed)

Na endometriose torácica, as lesões podem ser encontradas principalmente no diafragma e na pleura, membrana que envolve os pulmões, além de outras estruturas do tórax.

Ainda não existe uma única explicação capaz de justificar todos os casos. Entre os mecanismos estudados estão a migração de células pela cavidade abdominal e através do diafragma, a disseminação por vasos sanguíneos ou linfáticos e alterações celulares locais. É provável que mais de um mecanismo esteja envolvido. (PubMed Central (PMC))

Outro aspecto bastante característico é o predomínio das manifestações no lado direito do tórax, observado com frequência nos casos descritos na literatura. (PubMed Central (PMC))


Quais sintomas a endometriose torácica pode causar?


Os sintomas dependem da região acometida. Algumas mulheres podem inclusive apresentar poucas manifestações, mas, quando elas existem, um dos principais sinais de alerta é a relação entre os sintomas respiratórios ou torácicos e o período menstrual. (PubMed Central (PMC))


Entre as manifestações descritas estão:

  • dor no peito;

  • dor no ombro, especialmente do lado direito;

  • falta de ar;

  • tosse;

  • dor na região superior do abdômen ou abaixo das costelas;

  • tosse com sangue, mais raramente;

  • episódios recorrentes de pneumotórax relacionados ao ciclo menstrual.


A dor no ombro merece atenção porque uma lesão localizada no diafragma pode causar uma dor que é percebida em outra região. Assim, uma mulher pode procurar inicialmente um ortopedista ou investigar coluna e musculatura sem imaginar uma possível relação com a endometriose.


O que é pneumotórax catamenial?


Uma das apresentações mais conhecidas da endometriose torácica é o pneumotórax catamenial.

O pneumotórax acontece quando ar entra no espaço entre o pulmão e a parede do tórax, fazendo com que o pulmão perca parcial ou totalmente sua expansão. Quando esses episódios surgem de forma recorrente próximos ao início da menstruação, recebem o nome de pneumotórax catamenial.

Na literatura, ele costuma ser definido como um pneumotórax espontâneo que acontece aproximadamente entre 24 horas antes e 72 horas depois do início da menstruação. É a manifestação mais frequentemente descrita dentro da síndrome da endometriose torácica. (PubMed Central (PMC))

Nesses casos, podem surgir de maneira súbita dor no peito e falta de ar. Por se tratar de uma alteração pulmonar, esses sintomas exigem avaliação médica imediata.


A mulher precisa ter endometriose pélvica para desenvolver endometriose torácica?


Não obrigatoriamente, embora exista uma associação importante entre as duas condições.

Mulheres com endometriose torácica podem apresentar simultaneamente doença na pelve, e essa possibilidade deve ser considerada durante a investigação. Há também relatos em que a manifestação torácica foi justamente o primeiro sinal que levou à identificação da doença. (PubMed Central (PMC))

Por isso, conhecer toda a história da paciente faz diferença. Uma mulher que apresenta dor no peito ou no ombro repetidamente durante a menstruação e também convive com cólicas intensas, dor na relação, dor ao evacuar ou outros sintomas sugestivos de endometriose apresenta um padrão que merece uma investigação mais direcionada.


Por que o diagnóstico pode ser difícil?


Um dos principais desafios é justamente o fato de que os sintomas não parecem ginecológicos.

Uma paciente com falta de ar procura atendimento respiratório. Quem sente dor no ombro pode procurar um ortopedista. Uma dor abaixo das costelas pode inicialmente levar à investigação de outros órgãos.

Individualmente, todas essas avaliações fazem sentido. O que pode passar despercebido é o padrão de repetição relacionado ao ciclo menstrual.

Além disso, nenhum exame isolado identifica todos os casos de endometriose torácica. Radiografia e tomografia podem ser importantes para investigar complicações como pneumotórax ou presença de líquido no tórax, enquanto a ressonância magnética pode contribuir principalmente na avaliação de lesões diafragmáticas. (PubMed Central (PMC))

Quando existe necessidade de abordagem cirúrgica, a videotoracoscopia permite visualizar diretamente a cavidade torácica, enquanto a laparoscopia pode ser utilizada para avaliar o diafragma pela cavidade abdominal e investigar simultaneamente a presença de endometriose pélvica. (PubMed Central (PMC))


Por que observar o momento em que a dor aparece pode ajudar?


Na endometriose, o padrão do sintoma pode ser tão importante quanto sua localização.

Uma dor no ombro isolada tem inúmeras possíveis causas. O mesmo vale para dor torácica ou falta de ar. Mas quando esses episódios surgem repetidamente próximos à menstruação, desaparecem e voltam no ciclo seguinte, essa informação muda a investigação.

Por isso, uma paciente que percebe esse padrão deve contar ao médico quando o sintoma começa, quanto tempo dura e se existe relação com o período menstrual.

Esse histórico pode ser a peça que conecta manifestações aparentemente distantes.


Como é feito o tratamento?


O tratamento depende da localização das lesões, do tipo de manifestação, da intensidade dos sintomas, da presença de endometriose pélvica e do histórico individual da paciente.

O tratamento hormonal costuma ser a primeira abordagem em pacientes nas quais essa estratégia é adequada, com o objetivo de reduzir a atividade hormonal relacionada à doença e controlar os sintomas. (PubMed Central (PMC))

Nos casos em que os sintomas persistem, existem episódios recorrentes de pneumotórax, há contraindicação ao tratamento clínico ou é necessária abordagem de lesões específicas, a cirurgia pode ser indicada.

Casos complexos podem exigir uma equipe multidisciplinar, envolvendo ginecologista especializado em endometriose e cirurgião torácico. A abordagem pode combinar laparoscopia e cirurgia torácica minimamente invasiva, dependendo das regiões comprometidas. (PubMed Central (PMC))


Endometriose não é apenas uma doença da pelve


A endometriose torácica é uma apresentação incomum da doença, mas ajuda a reforçar uma mensagem importante: os sintomas da endometriose podem ultrapassar a região pélvica.

Isso não significa que toda dor no ombro, no peito ou toda falta de ar esteja relacionada à endometriose. Essas manifestações possuem diversas causas e precisam ser avaliadas adequadamente.

O que merece atenção é principalmente a repetição dos sintomas em associação com o ciclo menstrual, especialmente em mulheres que já têm diagnóstico de endometriose ou apresentam outros sinais sugestivos da doença.

Reconhecer essas relações pode ajudar a direcionar a investigação e evitar que sintomas aparentemente desconectados sejam analisados durante anos de maneira isolada.



Referências


Nezhat C, et al. Thoracic Endometriosis Syndrome: A Comprehensive Review and Multidisciplinary Approach to Management. Journal of Clinical Medicine. 2024;13(24):7602.

Nezhat C, et al. Thoracic Endometriosis Syndrome: A Review of Diagnosis and Management. JSLS. 2019;23(3).

Becker CM, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022.

Ciriaco P, et al. Catamenial Pneumothorax as the First Expression of Thoracic Endometriosis Syndrome and Pelvic Endometriosis. Journal of Clinical Medicine. 2022;11(5):1200.

 
 
 

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